O corpo de quem pratica yoga: rejeitando as imagens idealizadas pela sociedade

Abril 27, 2015


O yoga me salvou, muito literalmente. Durante muito tempo a esteira de yoga foi o único lugar onde eu me sentia não apenas viva, mas também disposta a fazer o que era preciso para continuar vivendo. À medida que meu corpo foi se fortalecendo e minha mente foi clareando, pude, pela primeira vez na vida, ouvir o murmúrio de uma vocação da qual eu não tinha me dado conta antes. Percebi que eu precisava compartilhar o poder curador do yoga com outras pessoas como eu. Então estudei, treinei e comecei a seguir aquele chamado.

Tomei consciência de todo o espectro de pessoas que podem beneficiar-se do yoga muito antes de ter aberto meu próprio estúdio e antes de vivenciar a profunda transformação física da gravidez e do parto. Um dia, quando estava praticando em um estúdio em Tacoma, Washington, olhei à minha volta, e o que me chamou a atenção foi a diversidade de formas e tipos corporais das pessoas ali presentes, todas fazendo a mesma postura mas todas totalmente diferentes umas das outras. De cerca de 30 pessoas no recinto, apenas duas se pareciam um pouco com os yogis e as yoginis que são vistos com frequência nas capas de revistas sobre yoga (eu não era uma delas). 
Isso não quer dizer que apenas duas pessoas naquela sala eram belas. Pelo contrário, na realidade. Cada pessoa que estava ali era bonita à sua maneira, e, o que era mais importante, apresentava um brilho devido à prática coletiva do yoga.

Quando fui me firmando em minha carreira de professora de yoga e comecei a especializar meu ensino, voltando-o a pessoas com habilidades físicas, emocionais e mentais diversas, notei como o praticante mediano de yoga é pouco representado na grande mídia e também na mídia do setor do yoga.

Comecei a ensinar cinco grupos principais de pessoas:

*Pessoas com TEPT (transtorno do estresse pós-traumático) e outras doenças relacionadas ao estresse (especificamente, veteranos de guerra, dependentes de drogas ou álcool e sobreviventes de traumas sexuais).
*Pessoas que sofriam de atrasos diversos de desenvolvimento, incluindo a síndrome de Down, autismo e graus diversos de RM (retardo mental)
*Pessoas da terceira idade, algumas delas em ótima forma física e algumas confinadas em cadeiras de roda
*Pessoas de todas as idades com desordens neurológicas, como esclerose múltipla
*Pessoas que se recuperam de lesões.

Dentro de cada um desses grupos havia grandes variações em termos de habilidade, e também havia muita sobreposição entre grupos. Ao mesmo tempo eu também estava ensinando pessoas "normais", e a mesma coisa se aplicava a esse grupo. Muitas das pessoas de minhas turmas de yoga "normais" poderiam facilmente estar em uma das turmas especializadas. O elemento comum aos membros de todos os grupos, não importa qual fosse sua habilidade física ou mental, era a certeza de não serem representativos do yogi ou da yogini típicos. Quanto mais eu ensinei e pratiquei, mais fui percebendo que a percepção que a sociedade tem do yogi mediano não corresponde à realidade, de maneira alguma. Há milhares de pessoas que praticam yoga sempre e têm problemas nos joelhos, cicatrizes de cesáreas, braços flácidos e pele imperfeita.

Na nossa cultura, atribuímos valor enorme à aparência aparentemente perfeita. Mas, como todos sabemos, esse ideal é irrealista e inatingível para a maioria de nós. Então como se explica que, assim que é mencionada a palavra "yoga", a primeira imagem que nos vem à cabeça (também à cabeça de quem pratica yoga regularmente) é de uma mulher magra, flexível, bela e geralmente branca? Como foi que o yoga, que em sua essência implica no reconhecimento da natureza compartilhada de todas as coisas, caiu vítima da obsessão de perfeição da sociedade?
As respostas a essas perguntas são muito longas e complexas, e existem outros muito mais bem qualificados que eu para respondê-las. Mas, como professora de yoga com mais de mil horas de experiência ensinando yoga a uma gama muito grande de pessoas, acredito ter algo a dizer sobre os efeitos que essa representação equivocada exerce sobre o praticante comum de yoga.

Quando eu e Pamela Higley fundamos em Tacoma o estúdio sem fins lucrativos Samdhana-Karana Yoga, nosso desejo era criar um espaço onde todos se sentissem à vontade conhecendo e praticando o yoga. Queríamos um espaço curador, livre de expectativas e pressões. Pamela e eu somos bons exemplos do tipo de pessoas que queríamos deixar à vontade. Nenhuma de nós usa tamanho 34 (nem 36 ou 38). Nós duas temos algumas lesões que ocasionalmente limitam nossa mobilidade. Pamela é veterana do Exército americano e recebeu o diagnóstico de esclerose múltipla quando tinha 20 e poucos anos. Eu, com a mesma idade, recebi o diagnóstico de TEPT.

Quando abrimos o estúdio, Pamela tinha tido e amamentado dois filhos. Desde então, eu também dei à luz a dois filhos e os amamentei. Em outras palavras, somos duas mulheres muito comuns, com estrias, seios muito bem usados e histórias pessoais de perdas, dores e vitórias.
A missão do Samdhana-Karana Yoga é tornar o yoga acessível a pessoas de todos os níveis de renda e capacidade física. Quando abrimos o estúdio, em 15 de setembro de 2010, ficamos emocionadíssimas com o apoio e a recepção que tivemos da comunidade. Nossos alunos comentavam com frequência como estavam satisfeitos por a) poder praticar yoga regularmente, pagando pouco, e b) participar de turmas em que não se sentiam inaptos e inseguros devido ao que consideram ser suas deficiências.

Quero deixar claro: acho que existem muitos estúdios de yoga que acolhem alunos de graus de habilidade diversos. Mas, como professora e estudante, já observei que, por mais que um professor fale aos alunos que devem seguir seu ritmo próprio e que o ponto em que estão em sua prática é exatamente onde devem estar, a tendência a comparar-se e competir com outros alunos é irresistível. Parece que, não importa qual mensagem os alunos recebam de seus professores de yoga, a mensagem da sociedade mais ampla fala mais alto e é interiorizada rapidamente.

Essa mensagem da sociedade promove um ideal de perfeição corporal irrealista e inatingível. É uma mensagem que reforça o sentimento de vergonha e constrangimento das pessoas por seus corpos saudáveis e normais. É uma mensagem graças à qual meninas, especialmente, são programadas desde pequenas a pensar que, para serem aceitas e para que as pessoas gostem delas, elas precisam se adequar aos ideais de beleza amplamente aceitas. O ideal de beleza muitas vezes envolve ser magra e bem-vestida. Dentro desse contexto, não há lugar para as pessoas que não se enquadram nesse ideal. Infelizmente, esse é o caso da maioria de nós.

Essas expectativas irrealistas, somadas ao desejo insaciável de alcançar o inalcançável, leva à baixa autoestima, depressão e às pessoas passarem a vida sentindo que não são "boas o suficiente". Os americanos consomem cosméticos, produtos para os cabelos e procedimentos cirúrgicos em ritmo alarmante. Gastam-se US$38 bilhões por ano com cosméticos nos Estados Unidos. Bilhões! Um dado igualmente alarmante: o montante estimado gasto com produtos de yoga chega a US$27 bilhões. Isso impõe uma pergunta: estará o yoga se tornando parte do problema, em vez da solução? O yoga está se convertendo em mais uma coisa a ser consumida no esforço das pessoas para se enquadrarem, para ser belas e encontrar aceitação? Se sim, quantas pessoas - como eu - que precisam desesperadamente da cura que o yoga pode oferecer sentem que o yoga se tornou inacessível a elas?

Sendo eu uma pessoa tão vulnerável quanto qualquer outra às expectativas da sociedade, sinto-me na obrigação de dizer às pessoas o que constato diariamente: o yoga é para todos. Admiro Dharma Mittra há anos e, como muitos estudantes e professores de yoga, já passei muitas horas estudando e admirando seu famoso "Master Yoga Chart" de 908 posturas. Seus anos de prática dedicada, e os resultados desses anos, são uma inspiração para todos nós. Há alguns anos tenho a ideia de que eu gostaria de recriar o "Dharma Mittra Master Yoga Chart", usando fotos de yogis de todas as formas, os tamanhos e as habilidades. Quero mostras yogis altos, baixos, gordos, magros, belos, engraçados, de barba feita ou não, tatuados, yogis em boa forma física e outros que apresentam deficiências físicas. Yogis com cicatrizes, marcas de nascença, estrias, celulites e gordura nos quadris. Yogis com suas histórias próprias, seus traumas, suas perdas e seus triunfos. Yogis que estão luzindo, confiantes e vulneráveis. Minha ideia ainda não se concretizou, mas não sou a única que está pensando em algo do tipo. Existem projetos como o Yoga & Body Image Coalition e livros como este que estão tentando mudar a mensagem, para transmitir a de que o yoga é para todas as pessoas, para todos os corpos.

A intenção de Dharma Mittra nunca foi definir um padrão de como deve ser a aparência do corpo de um yogi ou do que o yogi deve ser capaz de fazer. Não - seu verdadeiro legado é o da devoção à prática do yoga. Nem todos podemos dedicar nossa vida ao yoga, como ele fez, mas todos podemos fazer cada postura de yoga do melhor modo que conseguimos. Nem todas as pessoas que se dedicam a essa prática vão desenvolver as habilidades físicas de Dharma Mittra, mas cada pessoa dedicada à sua prática pode conquistar algo muito mais valioso: aceitar e possivelmente até amar quem ela é, por dentro e por fora.

Fonte: www.brasilpost.com.br/vk-harber/o-corpo-de-quem-pratica-y_b_7090222.html


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